(Entenda o porquê)
Quando se trata de dinheiro, o brasileiro por natureza sempre busca ser o mais cauteloso possível, e isso não é diferente quando saímos do espectro de trocas comerciais de pessoas físicas para ambientes corporativos. Na verdade, o habitual é vermos processos mais pensados e planejados, passando por diversas análises e pessoas envolvidas em uma única compra.
Na pesquisa de fevereiro de 2022, a About Brazil captou alguns insights interessantes de como os gestores de empresas de diversos segmentos e portes do Brasil entendem e preferem realizar seus pagamentos. A resposta não é óbvia, mas relata uma tendência conservadora que já se prolonga no mercado há algum tempo. No recorte dos executivos entrevistados nas diversas regiões do país, 66,7% relataram ter o boleto como método de pagamento preferencial, e os que não optaram pelo boleto, quase unanimemente escolheram o cartão de crédito como a sua forma preferida.
Quando questionados sobre o porquê dessa escolha, as respostas variaram entre conformidade fiscal, rastreabilidade, controle documental e receio de erro humano. Os que preferem o cartão, em contrapartida, valorizam principalmente a automação do processo, em especial para evitar vencimentos e inadimplência.
“Usávamos boletos, mas o pessoal do contas a pagar esquecia de pagar. Com juros, decidimos usar o cartão corporativo.” — Gerente Administrativa, empresa de Salvador.
A PANDEMIA E O REFLEXO NA TOMADA DE DECISÕES
O comportamento conservador das empresas brasileiras também pode ser lido como um reflexo da insegurança econômica acentuada pela pandemia de COVID-19. Segundo dados do IBGE, o Brasil teve mais de 1 milhão de empresas encerradas entre 2020 e 2021. Este cenário levou muitas empresas sobreviventes a priorizarem o controle, a previsibilidade e a burocracia formalizada, como forma de garantir a continuidade dos negócios.
De acordo com um levantamento da CNDL/ SPC Brasil, 62% das empresas reduziram investimentos em inovação ou expansão durante e após a pandemia, priorizando o pagamento de dívidas, manutenção de folha e obrigações tributárias.
A CULTURA DE “DEFESA” NO AMBIENTE EMPRESARIAL
Outro fator estrutural está ligado à própria cultura de gestão brasileira, baseada em modelos hierárquicos, de controle e pouca descentralização. No relatório da McKinsey & Company (2021) sobre a digitalização na América Latina, o Brasil apareceu com um dos menores índices de adoção tecnológica nos processos internos, principalmente entre PMEs.
Na prática, isso significa que sistemas mais tradicionais como boletos bancários seguem preferidos porque:
- Permitem controle manual ou semi-automatizado (via ERP como OMIE)
- São facilmente integráveis à contabilidade
- São considerados “seguros” pela alta rastreabilidade
- Reduzem riscos de fraudes percebidas em métodos como Pix ou links de pagamento
Ainda que métodos mais modernos, como links de pagamento ou Pix, sejam mais ágeis e flexíveis, eles não oferecem o mesmo nível de documentação e controle contábil, o que acaba sendo um ponto de bloqueio para empresas que operam sob forte pressão fiscal e regulatória, ainda mais para adesão do setor financeiro em sua manutenção de pagamentos e organização fiscal.
A FALTA DE INVESTIMENTO EM TECNOLOGIA TAMBÉM AJUDA A EXPLICAR
Segundo a Pesquisa Anual de Inovação (PINTEC/IBGE), apenas 33,6% das empresas industriais brasileiras declararam ter feito algum investimento em inovação entre 2017 e 2020. No setor de serviços, esse número cai ainda mais. Dados que colocam em antítese a hipótese que o baixo investimento em tecnologia e inovação esteja puramente relacionado à crise da COVID-19.
No recorte empresarial analisado no relatório da About Brazil, percebe-se que mesmo quando há sistemas de ERP implantados, como OMIE, ainda assim há resistência em adotar formas de pagamento mais modernas, como Pix ou links. A justificativa recai na dificuldade de reverter erros e no “baixo controle”.
“PIX é muito fácil, bom para uso pessoal e valores pequenos, mas não usamos para valores altos, porque qualquer erro não pode ser revertido.” — Gerente Administrativa, setor de gestão de imóveis.
ENTÃO, POR QUE SOMOS ASSIM?
A resposta é multifatorial:
- Histórico de instabilidade econômica e alta carga tributária fazem com que empresas adotem posturas defensivas.
- Burocracia fiscal e exigências legais incentivam o uso de métodos formais como boletos e NFS-e.
- Baixo índice de digitalização em pequenas e médias empresas.
- Cultura empresarial hierárquica, que valoriza controle e validações sucessivas.
- Desconfiança em novas tecnologias por conta de fraudes, clonagens e golpes digitais — como relatado por vários gestores na pesquisa.
CONCLUSÃO: O CONSERVADORISMO AINDA É UMA ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA
Mais do que um traço cultural, o conservadorismo financeiro do empresariado brasileiro parece ser uma resposta prática e adaptativa às condições do mercado interno, caracterizado por riscos altos, baixa previsibilidade e histórico de crises cíclicas. De acordo com o artigo da OECD de março deste ano, os 38 países que estão dentro da organização investiram em média cerca de 2,7% de seus PIB’s em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), em comparação, no mesmo ano de 2023, o Brasil investiu aproximadamente 1,2%, o que indica uma possível negligência nacional sobre esses setores.
Se por um lado isso garante sobrevivência e previsibilidade, por outro pode atrasar transformações digitais essenciais para inovação, competitividade e crescimento sustentável. Para romper com esse ciclo, é necessário mais que tecnologia: é preciso mudar a mentalidade, investir em capacitação e criar estruturas mais ágeis e seguras para inovação, além de uma atenção governamental maior para negócios que envolvem tecnologia e manufatura.
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